Cuidados Básicos & Cultivo – Parte 2

Podas

A poda representa a eliminação total ou parcial de galhos ou ramos de uma árvore. No trato com o tema bonsai, a eliminação de raízes, folhas e “agulhas” também são tidas como podas – respectivamente: poda, desfolha e pinçagem.

Antes de realizar uma poda, deve se ter em conta o histórico e o estado de saúde do bonsai. As podas não devem ser praticadas sem o necessário conhecimento do porquê, quando e como.

• Objetivos da Poda
Os objetivos básicos para podar um bonsai são cultivo e modelagem. Utilizar a poda de galhos para propiciar melhor “ventilação” e “iluminação” da árvore como um todo, é um exemplo de “poda de cultivo”. A eliminação de partes externas da árvore para minimizar os efeitos do crescimento apical, é um outro exemplo.

Tempos atrás, antes do uso do arame para a “educação” do bonsai, a poda de modelagem era o principal meio de estilização. A poda de modelagem contribui fortemente para a estilização de muda bruta, bem como para a reestilização de um bonsai formado.

•Tipos de Poda

Dependendo do estágio em que se encontra o exemplar a ser podado (muda bruta, pré-bonsai ou bonsai), bem como do seu porte e do resultado pretendido, um ou mais tipos de poda serão aplicados, quais sejam: poda drástica, poda de formação e poda de manutenção. A poda drástica é muito usada na fase inicial do trabalho, particularmente quando a muda trabalhada tem grandes dimensões. Também em reestilizações extremas (por exemplo: “kengai” para “moyogi”). A poda de formação pode ser considerada a primeira poda para a modelagem de um bonsai. É uma poda forte, através do qual se define a estrutura do futuro bonsai e que resulta na eliminação do “supérfluo”.

De tempo em tempo, é necessário proceder à poda de manutenção. Nesta operação, os galhos e brotações desordenadas, que se cruzam e que geram uma excessiva densidade, são criteriosamente eliminados, resultando no restabelecimento da melhor estética do bonsai.

•Poda de Raízes

A poda de raízes requer uma avaliação prévia das necessidade e objetivos para fazê-lo e em que intensidade, bem como a tomada de alguns cuidados com a integridade das raízes enquanto expostas. As podas serão menos intensas quanto maior for a maturidade do bonsai. Assim a poda inicial é bastante drástica quando comparada às podas do replantio.

•Selante

Podar um elemento da árvore resulta numa “ferida” que deve ser tratada. O uso de selante, massa ou pasta cicatrizante fecha de imediato a porta que se abriu, minimizando a penetração de umidade, fungos e outros elementos nocivos a saúde da árvore. Portanto, ao proceder a poda de tronco, galho ou raiz de maior calibre, é recomendável o uso de selante ou cicatrizante.

•Desfolha

É a eliminação total ou parcial das folhas da árvore. Atenção, pois nem todas as espécies de árvore admitem a desfolha. Outra atenção deve ser dada às gemas latentes, que respondem pelas novas brotações. Como as gemas de brotação estão localizadas junto ao pedículo (fixação da folha) ao galho, a nova brotação é mais assegurada se na eliminação da folha a sua haste for preservada. A desfolha total, em alguns casos, induz o aumento de ramificação do galho, reduz e homogeneíza o tamanho das novas folhas, também permitindo a melhor visualização e avaliação da árvore “desnuda”, assim como, facilitando a prática da aramação. Já a desfolha parcial é empregada para fortalecer galho em desequilíbrio com o todo. Neste caso, o galho “fraco” é o único que não é desfolhado, tendo assim o seu crescimento continuado. Por outro lado, as partes mais “fortes” são “freadas” pela desfolha.
Árvore forte e saudável indica equilíbrio entre massas foliar e radicular. Assim, quando uma poda de raízes precisa ser mais abrangente, proceder uma desfolha “restabelece” o dito equilíbrio de massas.

Modelagem com Arame

A utilização do filamento de metal ou arame é muito recente, usado a poucas décadas no bonsai para educação dos galhos.

Então, como era feito no passado a modelagem do bonsai?

Ainda hoje, aqui mesmo no Brasil, pode-se encontrar bonsaísta seguidores de escolas tradicionais. Como no passado, a “educação” do bonsai é feita com a utilização de pesos e de guias.

Com o uso do arame, além de baixar ou levantar, ou ainda, movimentar lateralmente um galho, tornou-se possível curvá-lo. Assim, o nível estético foi elevado sendo alcançado resultados ilimitados.

Das etapas de criação do bonsai, a aramação é tida como a mais difícil. Entretanto, passado o período de aprendizado, a tarefa de aramar torna-se fácil em conseqüência natural do tempo de prática.

O emprego de arames na orientação de galhos ou tronco é temporário e, portanto, não pode ser “esquecido” na árvore. Tal descuido pode comprometer seriamente a qualidade estética do bonsai.

O tempo de permanência do arame no bonsai não resulta de equação lógica qualquer. É pura observação. Com o tempo de prática, é possível estimar-se o prazo para a retirada do arame. Em caso de dúvida sobre a continuação de um arame na árvore, retire-o. Se retirado o arame, galho ou tronco mostra-se “rebelde”, re-arame-o evitando o exato percurso anterior do arame – naqueles pontos o tecido está fragilizado.

•Tipos de Arame

São usados dois tipos de arames: o de cobre recozido e o de alumínio.

O arame de cobre recozido ainda não é muito utilizado no Brasil. Por ser mais rígido, não deve ser utilizado em árvores de casca sensível. Por sua maior dificuldade de condução, não é recomendado o seu uso por bonsaístas em fase de aprendizado. Por outro lado, esta mesma rigidez permite a utilização de fios de diâmetro inferior, minimizando o aspecto “armadura” que a aramação produz no bonsai.

O arame de alumínio pode ser mais facilmente encontrado que o de cobre recozido. Por ser menos rígido, o fio de alumínio é também o mais indicado para os que se iniciam na arte do bonsai.

•Sequência do Trabalho

Tendo em mente o resultado desejado com a árvore, e tendo sido executada uma “limpeza” mínima – eliminação de galhos e/ou brotações efetivamente dispensáveis – inicia-se a aramação das partes mais grossas e resistentes para as mais finas e flexíveis. Assim, primeiro arama-se o tronco, em seguida os galhos principais, depois os secundários e finalmente o ápice.

•Calibre do Arame

Não existe um padrão determinado do diâmetro do arame a ser usado em determinado galho. É uma questão de puro tato. “Experimentando” a flexibilidade do galho é que se aproximará do arame mais adequado. Esta sensibilidade crescerá com a experiência do bonsaísta. O importante é que o calibre do arame utilizado seja o mínimo necessário para “segurar” o galho da forma desejada.

•Apoio do Arame

A eficácia da aramação terá início na “ancoragem” do arame. Sendo o tronco o alvo, o apoio do arame será feito no solo.
Quando o objetivo é um galho, pode-se utilizar o tronco para apoio do arame – passando 2 ou 3 voltas pelo tronco. Uma forma mais otimizada de aramar galhos é fazê-lo aos pares, ou seja, um mesmo arame usado para monitorar dois galhos, ambos de flexibilidades semelhantes.

•Ângulo de Aramação

O ângulo de inclinação do arame posto helicoidalmente no galho, expressa a melhor eficácia quando é o mais próximo de 45° em relação ao próprio galho. Quando as voltas do arame estão muito juntas ou muito separadas, a monitoração do galho será prejudicada.

•Movimentos de Rotação
Passar o arame no sentido horário ou anti-horário? Este detalhe se faz importante quando se precisa girar o galho em torno do seu eixo, visando particularmente a horizontalização de suas ramificações. Neste caso, a aramação seguirá o mesmo sentido da rotação necessária.

Cuidados Básicos & Cultivo – Parte 1

Sol

Como todas as árvores, o Bonsai também necessita de uma exposição solar adequada para o seu desenvolvimento, sendo um dos fatores que contribuem para a redução do tamanho das folhas. A necessidade diária de sol varia de acordo com as espécies sendo que, de uma forma geral, as plantas toleram a privação de sol por curtos períodos, não superiores a 1 semana, devendo o retorno ao sol ocorrer de forma gradativa. As coníferas necessitam de uma grande exposição solar, ou seja, precisam ficar expostas ao sol por um período de aproximadamente 5 (cinco) horas por dia. As espécies de clima temperado não devem ser expostas ao sol forte, especialmente as plantas não adaptadas. Por outro lado, as plantas de folha larga geralmente suportam uma menor exposição solar, podendo sobreviver com até 2 horas diárias. Os Ficus toleram, por um tempo maior, uma incidência de luz indireta, ou seja, colocado a 50 cm de uma janela clara. Entretanto, para garantir a sua vitalidade, periodicamente deverá ser submetido a uma exposição solar adequada.

Adubação

As formas e intervalos de adubação variam de acordo com a estação do ano e principalmente com relação ao estágio de desenvolvimento que se encontra o Bonsai. Nos estágios iniciais de desenvolvimento de um Bonsai, é necessário um crescimento mais vigoroso para atingir as proporções adequadas segundo a escola japonesa. Em função disso, as plantas nesse estágio, requerem uma maior quantidade de nutrientes, sendo necessário uma adubação mais intensa. Bonsai estabilizados necessitam apenas de uma adubação adequada a sua manutenção. A primavera e o verão são as estações em que as plantas tem maior taxa de crescimento, necessitando de mais nutrientes. No inverno, período em que a planta encontra-se em dormência e em plantas com menos de 45 dias pós transplante ou doentes, a adubação jamais deve ser feita.

Transplantes

As plantas não precisam ser transplantadas anualmente. Após a poda das raízes, um Bonsai leva, em média, 1 ano para se recuperar e armazenar novas reservas de nutrientes. Assim, se os Bonsai forem podados anualmente a planta fica em constante recuperação perdendo seu vigor podendo chegar até a morte. O intervalo entre transplantes depende da espécie e da fase de treinamento. Os transplantes são realizados em intervalos de 3 a 5 anos, na época mais propícia, que depende da espécie. Em geral os transplantes são realizados no período compreendido entre meados do inverno e o início da primavera. Para transplantes de manutenção podamos em média 1/3 das raízes. Após o transplante, o Bonsai deve ser colocado em um local sombreado, mas com bastante claridade, por pelo menos 30 dias, promovendo seu retorno ao sol de forma gradativa.

Solo

O solo adequado para o cultivo do Bonsai deve ser livre de pó e apresentar características bem definidas no que se refere à granulometria, capacidade de manter a umidade no interior da partícula e de drenagem do excesso de água dos interstícios. A terra granulada tem a função de manter a umidade do solo. Sua composição deve ser altamente argilosa de forma a manter-se estável por um longo período de tempo, ou seja, sem desfazer os grãos, evitando assim a compactação o solo. O caco de telha ou cerâmica de baixa temperatura triturada, apresenta a propriedade de reter água em seu interior liberando-a para o Bonsai de acordo com a necessidade e de favorecer a drenagem da água do interstício. A areia de granulação grossa, tem a função de permitir a aeração e auxiliar na drenagem do solo. A matéria orgânica tem a função de enriquecer o solo em nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta. A composição relativa dos componentes do solo utilizado no viveiro varia de acordo com as espécies.

Estilos de Bonsai

Faremos agora uma breve descrição de alguns dos estilos mais freqüentemente utilizados, identificando suas principais características. Ênfase será dada aos pontos principais que determinam o estilo, buscando facilitar sua identificação nos exemplares reais. Todos os estilos foram determinados através da observação e identificação de formas existentes na natureza, classificados e aperfeiçoados em concordância com os padrões e normas estéticas japoneses.

Esta classificação é apenas indicativa, podendo alguns Bonsai apresentarem características de mais de um estilo sendo então considerado o estilo dominante ou mais evidente.

 

Chokan (Ereto formal)

bonsai-estilo-chokan

É caracterizado por um tronco perfeitamente reto e perpendicular ao eixo do vaso, com conicidade bem definida. Os galhos devem seguir uma disposição em espiral ao longo do comprimento do tronco seguindo o seguinte padrão: o primeiro galho deve originar-se a um terço da altura do Bonsai, do lado direito ou esquerdo do tronco. O segundo deve originar-se do lado oposto e acima do primeiro e o terceiro na parte posterior. Esta seqüência deve continuar até o segundo terço da altura cuidando para que nenhum galho superior sobreponha seu inferior, devendo originar-se ligeiramente para frente ou para trás. A composição torna-se então relativamente livre no último terço podendo mesmo algum galho originar-se na frente do tronco. No restante segue as diretrizes padrão.

Moyogi (Ereto Informal)

estilo bonsai moyogi

De posicionamento ereto, diferencia-se pela presença de um tronco sinuoso preferencialmente formando uma espiral à medida que se encaminha para o ápice. O ápice por sua vez deve ser posicionado no centro de gravidade da árvore. Os galhos seguem o padrão clássico mas originando-se obrigatoriamente na face externa das curvas. Sua forma deve harmonizar-se com o tema, seguindo o ritmo definido pelo tronco. A folhagem deve ser densa mas com as áreas negativas (espaço entre os galhos) bem marcadas.

Shakan (Tronco Inclinado)

estilo bonsai shakan

Caracteriza-se pela presença de um tronco inclinado, de preferência não sinuoso. O equilíbrio é fornecido pelo balanceamento dos galhos. Para isso os galhos da face interna do ângulo de inclinação são mais curtos e leves, sendo os da face externa conseqüentemente mais longos e pesados. O nebari deve ser vigoroso passando uma impressão de estabilidade da árvore. As demais características seguem o padrão clássico.

Fukinagashi (Soprado pelo Vento)

De tronco inclinado e sinuoso, tem como característica principal a ausência de galhos vivos do lado oposto à inclinação. Neste lado os galhos são com freqüência retorcidos e transformados em jin e o tronco é descascado para a formação de shari. Estas características objetivam passar a impressão de uma árvore crescendo em condições de adversidade extrema, em que ventos fortes castigam um dos lados, impedindo o desenvolvimento dos galhos. Aqui também o nebari precisa ser vigoroso para que não se imagine que a árvore será arrancada pelos ventos.

Hokidachi (Vassoura)

Como características principais possui um tronco cônico, reto e ereto com copa de formato circular ou lembrando uma vassoura. Classicamente possui galhos originando a um terço da altura mas sem rigidez no posicionamento. Na verdade os galhos devem ser compostos de maneira a formar uma copa densa, altamente ramificada e sem áreas negativas. Entretanto deve-se evitar conflitos e cruzamento entre os galhos.

Kengai (Cascata)

Sua principal característica é a presença de um tronco que após sua saída do solo desenvolve uma curvatura, saindo do vaso e inclinando-se para baixo, ultrapassando com seu ápice o limite inferior do vaso. O tronco possui a forma de “S” com o ápice real buscando apontar para cima. O ápice aparente é na verdade o primeiro galho que volta-se para cima. Os demais galhos são dispostos de maneira a compor a copa em triângulo invertido, respeitando as normas de posicionamento e origem de galhos. O vaso não segue o padrão clássico pois necessita oferecer estabilidade ao Bonsai. São utilizados vasos profundos mas que não ultrapassem em volume 1/3 do volume total da composição.

Yosê-ue (Bosque)

Trata-se de um grupo de árvores que cria a impressão de uma floresta ou bosque. Classicamente o grupo é composto por árvores da mesma espécie. As árvores são de tamanhos diferentes e estilizadas individualmente mas seguindo um padrão comum. Para criação do senso de profundidade sem perda do conjunto, as árvores mais altas são colocadas mais a frente do vaso, sendo que a mais alta ou líder é a primeira. As demais são então dispostas em ordem decrescente de altura a medida que seguem para o fundo do vaso. A composição deve ser arranjada de tal maneira que não haja interferência entre galhos de árvores diferentes e que nenhum tronco seja obstruído por outro.

Bunjingi (Literato)

Em relação aos outros estilos, pode-se dizer que representa um estilo “livre”, porém não lhe faltando disciplina. Acima de tudo a árvore deve passar uma sensação de elegância e equilíbrio. Possui padrões estéticos únicos, diferenciando-se dos outros estilos. O tronco é afilado com sinuosidade delicada. Os galhos originam-se no terceiro terço do tronco, sendo portanto em quantidade reduzida e com folhagem pouco densa. O primeiro galho é mais curto que o segundo, podendo em alguns casos ser substituído por um Jin. Classicamente é colocado em um vaso pequeno de linhas pouco rígidas, sendo mais usados os redondos ou de formas irregulares.

Proporções e Normas Estéticas

As normas estéticas básicas que devem ser buscadas no cultivo do Bonsai e que servem como diretrizes na identificação de um verdadeiro Bonsai estão apresentadas a seguir. Ressaltamos que, como trata-se de uma arte viva, na maioria das vezes todos os requisitos não são alcançados. Assim, a arte consiste em trabalhar as plantas de forma a retratar uma árvore centenária segundo os modelos tão ricamente desenvolvidos pela natureza e estabelecidos pela escola japonesa.

◾ O vaso final deve possuir um comprimento aproximadamente igual a dois terços ( 2/3 ) da altura total do Bonsai ou de sua largura, sendo escolhido a que for maior;

◾ A altura do vaso deve ser menor ou igual ao diâmetro da base do tronco do bonsai;

◾ A altura máxima do Bonsai deve ser igual ou inferior a 6 (seis ) vezes o diâmetro da base de seu tronco. Alturas menores retratam árvores mais velhas valorizando o trabalho;

◾ O tronco deve possuir uma forma cônica marcante ao longo de seu comprimento, ou seja, ter uma base grossa que vai se afinando até o ápice. O descumprimento dessa norma acarreta um dos mais graves defeitos, chamado de conicidade invertida, de correção quase impossível;

◾ O primeiro galho deve iniciar-se a aproximadamente um terço da altura total do Bonsai;

◾ Os galhos devem dispor-se de forma alternada, em alturas diferentes, diminuindo de comprimento no sentido do ápice. O diâmetro dos galhos inferiores deve ser maior aparentando serem mais velhos;

◾ Nenhum galho deverá originar-se diretamente na parte da frente do tronco, e nenhum galho deve cruzar a frente do mesmo;

◾ Nos troncos sinuosos os galhos devem originar-se na parte externa das curvas;

◾ As raízes devem originar-se simetricamente em toda a circunferência do tronco, tomando uma orientação radial, formando um bom Nebari;

◾ Cada elemento e o conjunto do Bonsai deverá apresentar uma silhueta triangular, ou seja, de qualquer ângulo que o observarmos, o tronco e os galhos devem ter a forma triangular;

◾ A tríade básica da disposição dos galhos consiste em trabalhar a planta de forma que, caso o primeiro galho ocorra do lado direito, o segundo deve ser posterior, o terceiro do lado esquerdo, e assim sucessivamente. A distância entre os galhos deve diminuir à medida que se aproximam do ápice, bem como o seu comprimento.

Estas normas constituem orientações básicas a serem seguidas durante o desenvolvimento do Bonsai. Dependendo da fase de cultivo, algumas dessas normas podem ser desconsideradas, mas nunca ao ponto de descaracterizar o Bonsai. Assim, para identificar com justiça o verdadeiro Bonsai, devemos aliar bom senso às normas acima descritas.

Atualmente existem disponíveis no mercado uma grande variedade plantinhas em vasos rasos que são, erroneamente, identificadas como Bonsai. Os próprios consumidores freqüentemente têm dúvidas quanto a autenticidade do que estão adquirindo, pois, mesmo sem um maior conhecimento, conseguem perceber que essas plantinhas não têm aparência de árvores centenárias. Dessa forma, torna-se de fundamental importância conhecer um pouco mais dessas normas antes da aquisição de um verdadeiro Bonsai.

História do Bonsai no Brasil

O artigo abaixo nos foi enviado por Cláudio Seto da Sociedade de Estudos da Tradição Oriental localizada em Curitiba. Segundo Cláudio, A Sociedade de Estudo da Tradição Oriental é uma entidade que se dedica a divulgar cultura japonesa em língua portuguesa. O texto é de autoria do associado Chuji Takeguma e foi publicado originalmente em japonês no “The Contemporary Bonsai”, No 7, de 1990 e traduzido para o português pela associada Midori Machi. Trata-se de uma bela pesquisa, que muito contribui para elucidar quais foram os primeiros passos da Arte Bonsai em nosso país.

São poucas as referências sobre bonsai antigos no Brasil. As que existem estão em jornais e revistas agrícolas em língua japonesa. Uma garimpagem nesses textos resultaria numa bela obra sobre a história dessa arte no Brasil.

Conforme artigo publicado em japonês na revista Burajiru no Nogyô (Agricultura Brasileira), edição comemorativa dos 20 anos da Colônia Itacoloni (Promissão-SP), impresso em setembro de 1938, os bonsaistas históricos do Brasil foram Hadano de Bragança-SP, Miyoshi de São Paulo, Seto, Katsuki e Nita de Guaiçara-SP. Cada um deles a sua maneira fez várias experiências estudando a aclimatação de plantas cujas sementes vieram do Japão. Na década de 1930, a pequena cidade de Guaiçara produziu tantas plantas orientais que tornou-se conhecida mais tarde com o slogan de “Berço das plantas”. Grande parte de plantas de origem asiática hoje existente no Brasil, como por exemplo: pinheiro japonês (akamatsu e kuromatsu), junipero, acer, azaléia, ardísia, piracanta, marlus, glicínia e cerejeira ornamental foram produzidos inicialmente em Guaiçara e espalhados pelo País, através de trens puxados por máquinas à vapor, da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil.

Katsuki e Nita eram donos de chácaras de mudas de café, arvores frutíferas e plantas ornamentais. Passaram a cultivar sementes de plantas japonesas para atender o pedido de Noriyasu Seto, um fabricante de sake (vinho de arroz) e amante de bonsai. Com o passar do tempo, as duas chácaras (Nita e Katsuki) tornaram-se os maiores viveiros de bonsai do Brasil e a cidade de Guaiçara o centro irradiador dessa arte na colônia japonesa no período anterior a II Guerra Mundial.

Consta que desde 1908 quando chegou a primeira leva de imigrantes japoneses, muitas pessoas com conhecimento do cultivo de bonsai chegaram ao Brasil. Entre estes o monge budista Tomojiro Ikaragui, amigo de infância do bonsaista Noriyasu Seto, que teria trazido no navio Kasato Maru, tronco de amoreira, que seria o primeiro bonsai introduzido no Brasil, mas cujo destino ninguém sabe precisar, pois infelizmente foi confiscado pelos funcionários da alfândega juntamente com apetrechos para criação do bicho da seda. Portanto, apesar de muitos imigrantes conhecerem a arte do bonsai, não cultivavam nos primeiros tempos da imigração japonesa devido à difícil condição em que viviam como trabalhadores braçais nas lavouras de café.

Nos anos 30, com a estabilidade financeira alcançada pelos antigos imigrantes e aquisição de propriedades rurais por estes, pela primeira vez a colônia japonesa foi despertada à praticar artes de sua terra natal, entre elas o bonsai, que a partir de Guaiçara ganhava todo interior de São Paulo, cujas mudas chegaram também as mãos de Hadano (Bragança) e Miyoshi na capital, que fizeram verdadeiras obras de artes.

Goro Hashimoto foi o primeiro botânico da colônia japonesa à escreveu um livro sobre plantas brasileiras. E o primeiro bonsai com planta brasileira (bougainvillea), foi cultivado pelo jovem Tyotaro Matsui no início da década de 30, no Núcleo Aliança (hoje Guaimbê-SP). Desde 1924 quando os imigrantes japoneses entram em Primeira Aliança, para derrubar a mata-virgem e preparar o plantio da muda de café, constataram na região, a existência algumas variedades de bougainvillea. Essa plantas que os locais chamam de primavera ou três marias, logo despertou a atenção dos nipônicos, pois vista de longe, a espécie de bráctea de cor rosa lembravam o sakurá (cerejeira) em flor, provocando imensa saudade da terra natal.

Durante a derrubada da mata, Tyotaro Matsui, que aprendeu o cultivo de bonsai com Seto, foi guardando os troncos com raízes num riacho. Como na época não existiam vasos para bonsai no Brasil, o moço improvisou para seu uso, latas de querosene cortados na lateral, para os bonsai grandes e latas de marmelada para bonsai pequenos. As latas de querosene (20 litros), existiam muito na zona rural, pois a iluminação era a base de lampião de querosene. É interessante registrar que na época em Guaiçara, os vasos de bonsai de Seto, Nita e Katsuki, eram confeccionados em madeira – os vasos de cimento só apareceram nos fins dos anos 40 e início de 50.

TRÊS BONSAI DE TRÊS MARIAS

Com o avanço da estrada de ferro e início da colonização no norte do Paraná, Yonezo Matsui que tinha espírito de desbravador, mudou em 1937 com a família, para a Seção Yamato III, da Estação Apucarana, onde derrubou a mata virgem para plantar algodão. Seu filho Tyotaro tinha na época vários bonsai de bouganvillea (três marias ou primavera) e entre estes, três mais antigos de troncos espessos e de exuberante beleza.. Com medo das plantas não aclimatarem à nova terra, e a dificuldade em transportar na mudanças – onde ainda não existia estrada de rodagem – o moço Tyotaro presenteou Noriyassu Seto com dois de seus melhores bonsai, levando o outro para o Paraná. Comentavam na época que no norte do Paraná não existia essa planta. Mais tarde, plantada no solo, cresceu rigorosamente em terra roxa e as mudas foram espalhadas para todo Estado.

Em 1938, Noriyasu Seto enviou através do consulado do Japão em Bauru, um exemplar do bonsai de bougainvillea para o viveiro de plantas do Palácio Imperial no Japão. Seis meses depois recebeu uma carta de agradecimento do cerimonial do palácio, onde dizia que o Imperador (Hirohito) gostou muito da planta que floriu logo depois que chegou ao Japão. Como essa flor não tinha nome em japonês, sua majestade chamou-a de ikada katsurá. Assim, dos três primeiros bonsais de bouganvillea cultivadas no Brasil, só restou um no interior de São Paulo (Guaiçara).

Alguns anos depois o viveiro de bonsai de Noriyasu Seto começou a sofrer grandes ataques noturnos de formigas saúva. Em fila indiana, milhares de formigas vermelhas chegavam a desbastar completamente um bonsai em apenas uma noite. Os buracos de formiga começaram aparecer em vários pontos da chácara onde se situava a fábrica de sake e o viveiro de bonsai. O ato de colocar colheres de formicida em pó na carreira onde passavam as formigas ou em torno do buraco, não estava resolvendo. Noriyasu então despejou formicida líquido nos buracos, até esvaziar dois galões. A idéia era acabar com as formigas botando fogo uma por uma, em todos os ninhos do chão. Mal botou fogo no primeiro buraco, uma grande explosão derrubou uma velha figueira que ficava na beira da rua. Os buracos eram interligados tendo o ninho central na raiz da enorme árvore.

O estrondo foi ouvido pela cidade inteira já que Guaiçara era então uma pequena cidade. E tudo estaria bem se não fosse o fato de que em 1945 estava em andamento a Segunda Guerra Mundial. Acontece que a fábrica sake de Noriyasu Seto estava as margens da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, cujo trecho dentro do perímetro urbano era considerado “Área de Segurança Nacional”. Por esse motivo, na época, os imigrantes japoneses estavam proibidos de cruzar a estrada de ferro, chegando ao cúmulo de crianças (brasileiros descendente de japonês) que iam à escola, ter que andar vários quilômetros até sair do perímetro urbano para cruzar a linha.

O estrondo do formigueiro foi interpretado pela polícia local que os japonês estavam atacando Guaiçara para tomar a estrada de ferro. Imediatamente da estação ferroviária que ficava exato trezentos metros da figueira tombada, telegrafaram para o quartel de Lins notificando o ataque nipônico. Horas depois, num corre-corre cinematográfico a fábrica de Noriyasu estava cercado por caminhões, jipes, tanques e soldados armados até os dentes. Guaiçara que nunca teve quartel viu pela primeira vez uma operação bélica de tamanha expressão.

Apesar de Seto mal falar o português, não foi difícil fazer o comandante entender que se tratava apenas de um extermínio de formigueiros com fogo, tão comum nos pastos dos arredores da cidade. O difícil ou impossível foi ele tentar explicar ao representantes do Quartel General que cultivava árvores para fazê-las anã. Conclusão: toda família foi presa para “assegurar a tranqüilidade e o bem estar da Nação”. O comando do exército que alguns meses antes havia habilmente confiscou e transformou em quartel, a associação Japonesa de Lins e as autoridades policiais do distrito de Guaiçara, como bons cristãos entenderam que havia algo de subversivo na atitude de Noriyasu. Fizeram constar na ocorrência policial o seguinte ponto de vista: “Conforme vontade de Deus o natural é que as árvores cresçam de tamanho com o passar dos anos. Portanto, árvores que fazem o contrário, ou seja, vão diminuindo de tamanho só pode ser obra de satanás e motivo de preocupação para a segurança nacional, pois no futuro poderão fazer o mesmo com o valoroso povo brasileiro”.

A família Seto só foi solta depois que todos os bonsai foram plantados no chão. Como um guarda de quarteirão foi designado a vistoriar diariamente essas plantas, tornou-se impossível replantá-las em vasos. Noriyasu foi mandado para Casa de Detenção de São Paulo (Carandirú) e no ano seguinte (1946) para a Prisão Correcional de Ilha Anchieta, no litoral norte paulista, acusado de pertencer à organização subversiva Shindô Rennei.

O bonsai de bouganvillea, o pioneiro da espécie cultivada no Brasil, que foi plantada no chão por ordem das autoridades, cresceu como uma árvore normal, mas manteve o formato estético de bonsai, tanto pela estrutura do tronco, como pelas podas feitas pelos netos de Noriyasu (um deles Cláudio, ainda cultiva bonsai em Curitiba e foi o primeiro bonsaista brasileiro a cultivar cerejeira ornamental no Brasil). Em homenagem à essa planta o sake fabricado por Noriyassu que era denominado Hakutsuru e Hinohana, e foi obrigado a mudar de nome para “Sake Anjinho” durante a guerra, passou a chamar Sake Primavera, assim que o conflito mundial terminou. Anos depois o ex-bonsai de bouganvillea (primavera) tornou-se pela beleza, uma espécie de tração turística da pequena Guaiçara, onde até hoje está plantada.

Escolha do Material

Apesar de existirem vários métodos de se iniciar um Bonsai, fazendo-o através de mudas ou exemplares coletados (yamadori) conseguiremos resultados mais rápidos, o que é um aspecto especialmente importante para o iniciante na arte, ansioso por apreciar o seu Bonsai.

Teoricamente, qualquer espécie de caule lenhoso pode ser utilizada para o trabalho de Bonsai, mas para a obtenção de resultados mais agradáveis esteticamente, devemos preferir espécies de folhas, flores e frutos pequenos.

A idade da nossa matéria prima tem pouca importância pois o principal objetivo da arte é cultivar exemplares que aparentem possuir idade avançada. A análise da saúde e vigor do material a ser adquirido é o mais importante na escolha da matéria prima. Para a análise da matéria prima deve-se estar familiarizado com as proporções do Bonsai de modo a prever o estilo a ser trabalhado, pelo movimento apresentado pelo tronco.

Dentre todos os aspectos desejados em um Bonsai, um tronco cônico e grosso e um saudável sistema radicular são os mais difíceis de serem manipulados, especialmente pelo tempo requerido para que as alterações sejam notáveis. Assim sendo, estes pontos devem ser os mais bem analisados no momento da escolha da matéria prima.

A escolha da matéria prima começa na observação do sistema radicular superficial (nebari). As raízes devem originar-se em toda a circunferência do tronco, aproximadamente à mesma altura. Uma boa ramificação na superfície e um aspecto já “envelhecido” são ideais. O tronco deve ser observado de todos os ângulos visando obter uma conicidade marcante. Uma boa textura da casca adequada a espécie, também é um ponto importante a ser considerado.

O próximo passo será a avaliação do posicionamento e da distribuição dos galhos. Dependendo da espécie, este aspecto tem menor importância pois uma brotação vigorosa fornecerá galhos em quantidade e variedade de posicionamentos suficientes para o trabalho inicial. Entretanto, quando a matéria prima já possui uma boa disposição e orientação de galhos, ocorre uma redução no tempo de cultivo e evita-se a produção de cicatrizes. Mais uma vez devemos ter em mente as diretrizes básicas listadas no artigo “Proporções e Normas Estéticas”.

Quanto mais próximo o material estiver das características acima, melhores e mais rápidos serão os resultados do cultivo técnico do Bonsai. Bons materiais podem ser encontrados com certa facilidade em qualquer floricultura, bastando apenas observação atenta e disposição para mexer na terra descobrindo a parte baixa do tronco e a saída das raízes.